A fidalguia de Luiz Carlos de Azevedo - Antonio Sergio Altieri de Moraes Pitombo - Migalhas: pílulas de informação - 05.07.2011

A notícia chegou por meio de um amigo comum, nas vésperas do feriado de carnaval. A morte do Professor Luiz Carlos de Azevedo não limitava a tristeza ao fato em si, mas só crescia ao pensar nos caminhos da vida.

O corre-corre do cotidiano nos afasta de quem deveríamos preservar o convívio, pessoas mais únicas do que as outras, cujo fim dói sobremaneira por não se poder mais lhes desfrutar dos ensinamentos, por não encontrar alguém apto a lhes substituir no diálogo.

Essa a primeira impressão, ao saber do passamento. Era a cobrança dentro da consciência por não o ter encontrado, nos últimos meses. Vinham à memória o sorriso cordial e os comentários que, vez ou outra, terminavam com uma sutil risada, ao concluir a ponderação inteligente.

Luiz Carlos de Azevedo era um fidalgo. Homem de princípios, com muita cultura. Capaz de contemplar, aprender, estudar, refletir e não abandonar a fé. A pretensa dicotomia crença e razão a ele não abalava, como intelectual com aptidão de superar o pensamento ordinário.

A paixão pela história do direito o conduziu na vida acadêmica, sendo certo que seus livros iluminam a interpretação do direito vigente com a indicação das origens dos institutos, bem assim por trazerem aos juristas os novos métodos de pesquisa histórica. Origem e introdução da apelação no Direito Lusitano, Introdução à História do Direito, Estudo histórico sobre a condição jurídica da mulher no Direito Luso-Brasileiro, alguns exemplos do legado que deixou.

Ao se folhar cada obra sua, vêem-se o primor cartesiano do plan e a vastidão da bibliografia, dois aspectos que só confirmam a disciplina do pesquisador, com habilidade para tornar a erudição em leitura agradável no texto.

Escrever sobre Luiz Carlos de Azevedo impõe falar da figura humana. Quem conheceu o advogado, o Desembargador do TJ-SP, o Professor do Largo de S. Francisco teve contato com a coleção de virtudes de sua pessoa. A elegância não contrastava com a simplicidade do ser. A polidez lhe era inerente, como também sua cultura transparecia numa simples observação - tudo sem pompa, natural, sem sacrifício.

Ele era um homem, sobretudo, bom. A amizade herdada me permite enxergá-lo na Idade Média e a supor que igual viver lhe levaria a ser conhecido como Luiz Carlos, o Benévolo. Imagino-o em traje da época, com montante e escudo, a defender o justo, acompanhado de outros cavaleiros inseparáveis.

Tal cena inventada não sai da mente, a idealizar os amigos do passado e do presente rindo juntos, convictos de que a luta pela dignidade da pessoa humana os une há séculos, num combate sem hipótese de fim.

As coincidências do acaso me levam à Sala dos Brasões, no Palácio Nacional de Sintra, onde encontro a insígnia dos Azevedo, no dia seguinte à má notícia. Na mesma noite, releio Mensagem, de Fernando Pessoa, e o destino me entrega o fecho de que tanto preciso, o qual ora lhe ofereço:

Onde quer que, entre sombras e dizeres, Jazas, remoto, sente-te sonhado, E ergue-te do fundo de não-seres Para teu novo fado!”

 



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