Quem é o seu mestre?

Inconcebível melhorar como profissional, ou como cultor do Direito, sem ter um mestre.

Há um assunto que tem me chamado atenção nos últimos tempos. Ao perguntar ao candidato a estágio quem são seus professores de Direito, recebo a singela resposta de um nome, sem sobrenome, sem o complemento quanto à atividade que o professor exerce fora da academia.

Agora, João, José, Maria - sem ser reconhecidos como juízes, promotores de Justiça, delegados de polícia, ou advogados - substituem aqueles que, no meu tempo de faculdade, sabíamos de antemão quem eram, qual título possuíam e quais livros haviam escrito.

Não faço essa observação para cuidar do problema objetivo das universidades e do ensino jurídico no nosso país. Escrevo para tratar da importância dos professores no desenvolvimento intelectual de cada um de nós. Aliás, quero cuidar da relevância de um mestre para aquele que almeja aprender sobre uma matéria qualquer, ou mesmo pretenda se aprimorar como profissional do Direito.

Esse o ponto que me leva à perplexidade. Como se tornou possível estudar algo sem se espelhar na figura e nos trabalhos de alguém que admiramos pelas capacidades diferenciadas?

Pode-se reconhecer o guia do nosso percurso de aprendizagem pela obra, pela didática, pela postura na sala de aula, pelo sucesso profissional. Não importa. Ao ler um texto, ver ou ouvir aquela pessoa tem-se o despertar que leva a procurar outros trabalhos, assistir mais aulas, ou conferências. Principalmente, esse despertar nos faz querer dialogar com o mestre.

Na minha carreira, foram muitos. No Largo de São Francisco, foram tantos que seria cansativo ao leitor eu listá-los. Na graduação me encantei com aulas, com textos de quem nem mesmo conheci (e.g., Tullio Ascarelli), com livros que mudaram meu modo de ver a própria vida. Queria parecer com os professores, imitar os gestos ao falar em público, o tom de voz, a maneira de escrever, o poder de concisão dos textos, a beleza retórica, a seriedade nas pesquisas jurídicas.

Também, na pós-graduação, colecionei ídolos que me permitiram conhecer, de modo prazeroso, alguma bibliografia de filosofia do Direito, Direito Penal e Direito Processual. Até hoje, trato cada um deles como pessoas inatingíveis, diante do alto nível intelectual que desenvolveram nas respectivas áreas de conhecimento.

Ao optar por me dedicar ao direito penal, para estudo e profissão, escolhi aquele com quem converso, mando meus textos antes de publicar, acolho as críticas, emociono-me quando vem o almejado elogio. Ricardo Antunes Andreucci, Professor Titular do Largo de São Francisco, brilhante advogado, depois, Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, mais que mentor, um amigo que herdei de meu pai, que jamais me abandonou em meio às vicissitudes da vida acadêmica e da advocacia.

Conto essa parcela da minha história pessoal, com humildade, para agradecer a todos, em especial a Ricardo Antunes Andreucci. Porém, trago da memória essas pessoas extraordinárias para dizer ao jovem estudante que me parece inconcebível melhorar como profissional, ou como cultor do Direito, sem ter um mestre.

É necessário encontrar o preceptor para ter a quem ouvir - verbo empoeirado desse momento contingente que passamos. Com o mestre, vamos aprender algo, discernir sobre a moral e a justiça, sofrer com nossas limitações na busca pelo sentido do justo.

O mestre apresenta-se o interlocutor que nos dirige entre os erros e as incertezas naturais ao desenvolvimento do estudo. Cada questão, ou resposta do mestre rememora a lição de Borges, pois, professor e discípulo "sabem que a discussão é o não impossível caminho para chegar a uma verdade".

 



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